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Desde: 21/04/2005      Publicadas: 50      Atualização: 30/04/2005

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  28/04/2005
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Histórias da empregada de Borges

Leio num jornal que a empregada de John Lennon publicou suas memórias do tempo em que trabalhou para o compositor, entre 1976 e 1980.

Leio num jornal que a empregada de John Lennon publicou suas memórias do tempo em que trabalhou para o compositor, entre 1976 e 1980. No livro "En Casa de John Lennon" (Hércules des Ediciones), a galega Rosaura López Lorenzo, hoje com 73 anos, conta que o músico era obcecado por dieta, consumia xícaras de chá sem parar, colocara dois bancos de igreja para apoiar sua cama de casal, tinha com Yoko Ono uma relação superapaixonada e dedicava boa parte de seu tempo ao filho, Sean, entre outras histórias íntimas. Relatos de empregados de pessoas famosas são menos comuns que de amigos e parentes, mas, quando existem, despertam enorme curiosidade, um pouco por voyeurismo do leitor, um pouco porque privilegiam a vida banal, os hábitos cotidianos e as situações comezinhas, coisas que os biógrafos deixam de lado. O mais célebre livro escrito por um empregado, creio, é "Monsieur Proust", de Céleste Albaret, que trabalhou como governanta nos últimos anos de vida do escritor, entre 1912 e 1922. A história da empregada de Proust virou um interessante filme, "Céleste", dirigido pelo alemão Percy Adlon, com a ótima Eva Mattes no papel-título. No ano passado, saiu na Argentina "El Señor Borges" (Edhasa), as memórias da empregada de Jorge Luis Borges, Epifanía Uveda de Robledo, recolhidas e redigidas por Alejandro Vaccaro, pesquisador e biógrafo do escritor. É um livro irregular, mas muito curioso, que vale a pena ser lido pelos fãs do autor de "O Aleph". Epifanía nasceu em 1922, no interior da Argentina. Na década de 1950 foi trabalhar com os Borges, em Buenos Aires. Na casa viviam apenas o escritor solteirão e sua mãe, Leonor Acevedo. Epifanía trabalhará para a família até 1986, um pouco antes de o escritor embarcar com a mulher, Maria Kodama, para a Europa, onde morreria, em Genebra, em 14 de julho do mesmo ano. No livro, a empregada, que se desentendeu com Kodama, dirige ataques violentos à superpoderosa mulher de Borges, que hoje administra todo o patrimônio intelectual do escritor. Epifanía se revolta e faz insinuações a respeito do testamento de Borges, que fez de Kodama a principal herdeira de seus bens e direitos autorais. A empregada também contesta que o escritor quisesse ser sepultado na Suíça. Borges, segundo Epifanía, era um homem plácido, caseiro, infantil e bastante agarrado à mãe _que morreu em 1975, aos 99 anos, quando o escritor tinha 76 anos. Leonor exercia para o filho a função de leitora, crítica literária e secretária, organizando as entrevistas e os compromissos de Borges e o acompanhando em várias viagens, inclusive aos Estados Unidos. Quando a sua mãe morreu, conta Epifanía, Borges passou o dia inteiro gritando: "Madre! Madre!". Leonor era uma mulher forte e interessante, que chegou a ser presa em 1955, aos 72 anos, com a filha, Norah, por participar de uma passeata contra o governo de Péron. A julgar pelo livro, a mãe era mais politizada que o próprio Borges, que vivia mergulhado nas fantasias literárias. Ele inclusive não gostava de jornais, e quando encontrava algum em casa, jogava fora, pela janela, acertando os pedestres. A mãe, que gostava de ler jornais, tinha que escondê-los debaixo de uma compoteira de cristal. O que não quer dizer que Borges fosse apolítico. Professava o liberalismo à inglesa, e suspeitava de todo discurso populista e nacionalista, tendo horror à forma passional de política do peronismo. Suas manifestações contra Péron, mesmo que raras, e as posições de sua família, levaram-no a ser perseguido pelo regime e ele chegou mesmo a receber ameaças de morte por telefone. Assim a mãe respondeu um dia às ameaças telefônicas: "Se queres matar esteja pronto, sou uma mulher velha e posso morrer a qualquer momento. Quanto a meu filho, é um homem cego que sai todos os dias à mesma hora para ir à Biblioteca Nacional". A situação de Borges na época da cruel ditadura militar na Argentina, nos anos 70, é bastante polêmica, por ele não ter jamais contestado publicamente o regime. Conta Epifanía que várias pessoas procuraram o escritor na época para que fizesse algo pelos desaparecidos políticos. "No início ele não estava inteirado do que ocorria, mas com o tempo foi-se dando conta e se indignou bastante." Um dia, uma moça foi à casa do escritor e descreveu a ele as torturas a que havia sido submetida. "O senhor Borges se comoveu muito e, depois que ela se foi, ficou sozinho no living repetindo: 'Pobre! Pobre!'". A narrativa de Fanny, como era chamada a empregada, é modesta e caseira. Conta como Borges aguardava todo ano o Prêmio Nobel, que jamais lhe foi concedido. Nas declarações públicas, aparentava desprendimento e ironia. Privadamente, contudo, contava não apenas com o prestígio do prêmio, mas sobretudo com o dinheiro, pois não era de família rica como o seu melhor amigo, o escritor Adolfo Bioy Casares _Adolfito, como o chamavam em casa. A prosperidade só bateu à porta de Borges no final da vida. "Pode-se dizer que Borges não era uma pessoa divertida, no sentido de ficar rindo o dia inteiro. Mas, sim, era alegre, já que sempre encontrava o lado humorístico das coisas. Ele ficava ainda mais feliz quando o senhor Adolfito vinha visitá-lo; então, parecia outra pessoa e ria às vezes às gargalhadas", recorda Fanny. Borges tinha a mania de embalar os livros que não queria e fingir que esquecera o pacote em cafés e locais públicos. Outra de suas esquisitices era guardar dinheiro dentro de livros. Quando as notas acabavam, dizia à empregada: "Temos que dar de comer ao camelo, Fanny". Era a senha para que ela fosse ao banco, pois não havia mais dinheiro dentro do livro, cuja lombada estampava um camelo em alto-relevo. Uma vez, Borges foi pago por uma entrevista com notas falsas, que ele não identificou por ser cego. Outra vez, foi confundido por um motorista de táxi com Ernesto Sábato. Segundo Fanny, Borges era um ateu que rezava, principalmente quando ia visitar o túmulo da mãe, no cemitério da Recoleta. Fanny conta que, um dia, ao fazer a foto para um passaporte, Borges se lembrou no meio do caminho que havia esquecido de colocar a dentadura. "Bem, senhor, eu o contestei, quando forem tirar a foto não abra a boca, fique sério. Nisso ele agia como um menino, essas cumplicidades o divertiam. No momento em que tiraram a foto me olhou fixamente e estava sério, muito sério, mas em seus olhos se notava que tudo era uma piada. Ao sair me disse: 'Fanny, creio que os enganei, ninguém percebeu nada'". São assim as recordações da empregada de Borges: feitas de pequenas histórias deliciosamente banais. MAIS BORGES Uma longa biografia do escritor foi publicada recentemente nos Estados Unidos, "Borges: A Life", de Edwin Williamson. Venho me preparando há semanas para enfrentar o grosso volume de 500 e tantas páginas. Enquanto esse dia não chega, voltei a ler a excelente "Autobiografia", de Borges, que reproduz o longo texto escrito em 1970 para a revista "New Yorker", junto com o tradutor inglês Norman Thomas di Giovanni. A edição da El Ateneo, de 1999, em capa dura, é um primor. Vale a pena ter em casa. Um livro muito bom sobre Borges, e ao qual pouca gente se refere, é "La Pasión y la Excepción - Eva, Borges y el Asesinato de Aramburu", de Beatriz Sarlo. É um formidável ensaio político e cultural, que reflete sobre a história argentina do pós-Segunda Guerra à luz do tema borgeano da vingança. Ao mesmo tempo, vislumbra na literatura de Borges uma dimensão política e histórica pouquíssimas vezes percebida. NOTA Esta coluna deixa de ser publicada até princípios de junho, devido a uma viagem de trabalho. Alcino Leite Neto é editor de Domingo da Folha e editor do site Trópico. Escreve para a Folha Online quinzenalmente, aos domingos.



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